Essas botas eram do meu pai. Lembro-me de, quando pequeno, subir na garupa e passear de moto, enquanto ele pilotava com elas nos pés. Há certo tempo, já com as botas em desuso, calcei-as e fui acampar. O velho calçado não aguentou: nem havia chegado ao destino e os solados se soltaram.
Fiquei na mão no meio do caminho, e tive que improvisar. Amarrava sacolas e fitas, que ajudavam a manter as solas no lugar por certo tempo, e me ajudavam a caminhar. Depois soltavam, e meus pés novamente encontravam o chão áspero. E então eu amarrava novamente.
A fita acabou, e as sacolas funcionaram melhor. Ao chegar no local de armar as tendas, preparamos o acampamento, mas não pude tirar as botas pra descansar, pois não teria como consertá-las de novo. Não conto essa história com pesar, foi tudo muito leve e engraçado.
No dia seguinte, desarmamos as barracas, limpamos o local e voltamos. Eu andava cautelosamente pelo caminho, e na metade do percurso as sacolas começaram a se soltar novamente. Por incrível que pareça, o par de botas me deu apoio pra pisar até o fim.
Ao chegar em casa, tirá-lo dos pés e contemplá-lo, vi um objeto que se tornara o item de recordação desses dias marcantes. Assim, fotografei.
Quando postado, uma pessoa que admiro comentou: “isso não é uma bota, é um troféu!”. Ri, e concordei com ela. Olhei para as botas, lembrei-me dos desafios superados no percurso e nela vi um troféu.
Tempo depois, mudei de ideia quanto às botas. Onde eu via beleza, passei a ver feiura. Hoje, ao olhar para elas, vejo outra coisa, e algo me intriga. Memória de infância, recordação do acampamento, troféu, feiura.
Quanto mistério encerram essas botas?
Ou, melhor dizendo, quanto mistério encerram os olhos? Não sei. O que sei é que elas me livraram de um bom sofrimento.
